3 de set de 2012

Gêneros e Intertextualidade: A Bíblia como Obra Literária. (terceira e última parte)

4.    Contexto
    Sempre que nos comunicamos estamos imersos a determinada situação. A isso chamamos contexto. Ou como melhor nos explica Villaça Koch (2006, p. 4), “o contexto é, portanto, um conjunto de suposições baseadas nos saberes dos interlocutores, mobilizados para a intepretação de um texto.”

    Só há entendimento entre os interlocutores quando eles conhecem o assunto sobre o qual vão discorrer e o meio (a linguagem)pelo qual vai ser expresso o tema. Por exemplo: Eu posso ser PHD em física quântica, vou ministrar uma palestra em Harvard para uma plateia tão qualificada quanto eu, mas não sei falar japonês e não há tradutor para esse idioma, e 50% da plateia só fala japonês. O que acontecerá? Somente metade do público compreenderá o que será dito, pelo simples motivo de não conhecer a língua pela qual será proferida a comunicação.Isso também acontece com a leitura da bíblia, há várias expressões idiomáticas das línguas hebraica, aramaica e grega que não conhecemos. Muitos tentam traduzir essas expressões literalmente e não vão ser felizes com o resultado. Como traduziríamos, por exemplo, as seguintes expressões idiomáticas para outro idioma: “Hoje no trabalho engoli muitos sapos”. Ou, ainda, “O seu Joaquim bateu as botas.” Essas expressões são comuns no nosso cotidiano, mas talvez, daqui a cem anos poucos saberão o seu significado. Imaginem textos que foram escritos há dois mil anos e, alguns, há três mil anos ou mais.    Ao depararmos com traduções de textos tão antigos temos que ter cautela em pronunciar qualquer opinião sem o cuidado de verificar o meio, a cultura, o contexto em que foi escrito tais passagens. Koch nos esclarece com mais propriedade a relevância do contexto para a compreensão de qualquer enunciado:
O contexto, da forma como é hoje entendido no interior da linguística textual, abrange, portanto, não só o co-texto, como a situação de interação imediata, a situação mediata (entorno sociopolítico-cultural) e também o contexto sociocognitivo dos interlocutoresque, na verdade, subsume os demais. Ele engloba todos os tipos de conhecimentos arquivados na memória dos actantes sociais, que necessitam ser mobilizados por ocasião de intercâmbio verbal. (2002, cap. II)

E para nos aclarar ainda mais sobre contexto, diz:
Quando adotamos, para entender o texto, a metáfora do iceberg, que tem uma pequena superfície à flor da água (o explícito) e uma superfície subjacente, que fundamenta a intepretação (o implícito), podemos chamar de contexto um iceberg como um todo, ou seja, tudo aquilo que, de alguma forma, contribui para ou determina a construção do sentido. (2008, cap. 3)

5.    Conclusão
   
    Há critérios de estudos de textos que nós, leitores comuns, não estamos acostumados a utilizar. Critérios esses que, a ciência da língua, conhecida como linguística, pode nos ser muito útil para uma melhor interpretação da Bíblia, seja a Bíblia Hebraica ou o Novo Testamento. Se estivermos realmente interessados em compreender um pouco mais a fundo os densos textos da cultura do povo de Israel, podemos nos valer dos estudos de alguns linguistas e, até, inclusive, da teoria literária.

    As pesquisas em Bíblia em nosso país estão só começando. Penso que está área é rica em sutilezas, em detalhes e em nuances que somente estudos sérios, embasados e comprometidos com a pureza da literatura bíblica poderão nos envolver e nos agraciar com as belezas que toda boa obra nos oferece.

A Bíblia deve ser estudada ou lida por prazer, como todos os clássicos da literatura. Temos que evitar os preconceitos. E quando nos deparamos com algo que não entendemos no texto bíblico, devemos procurar respostas em outras pesquisas sérias ou com alguém que esteja mais habituado ao texto em questão. O que não se deve fazer é pensar que aquilo que não compreendemos está errado. Como já dissemos antes, há sutilezas nos textos bíblicos que somente compreenderemos se nos envolvermos com estudos e com a alma.





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