11 de jan. de 2013

Reminiscências Passadas.



Muitas vezes, nas esferas do pensamento, nos sentimos como guerreiros após uma batalha. Sentimento de vitória, mãos suadas e sujas de sangue, uma mente vagando, tentando entender a sua posição na Terra.

Terminada a batalha, o guerreiro fixa o horizonte, lentamente observa o campo de batalha sujo e fétido, lembra-se das cenas por que passou horas atrás, quando sua espada dilacerava a carne do inimigo.

E dentro de sua rígida armadura, mais uma vez olha o horizonte, sente-se só e feliz, não sabendo ao certo os motivos de sua existência, mas feliz, porque em seu coração é isso que é, é isso que quer ser, pois gosta de usar armaduras. É o que gosta de fazer, um guerreiro, preparando-se para marchar sobre novas terras e mais uma vez, usar sua espada em um novo campo de batalha.

Jivago Dias Amboni
Janeiro de 2013.

5 de jan. de 2013

Momentos de Reflexão





Momentos de reflexão me fazem transcender. Minha alma lentamente deixa o corpo somático e direciona-se pelo tempo/espaço, adentrando nos Planos Espirituais. É uma verdadeira viagem, onde já nas vibrações do Universo, o princípio inteligente, que é o Espírito, flutua e divaga, guardando reminiscências de existências transatas, e tendo a certeza de seu exílio na prisão da carne. Tudo flui! As energias se condensam e enxergamos a nós mesmos. O religare da verdadeira vida como num átimo ecoa em nossa frente. A volta? Sempre dura e dolorosa. Novamente as densidades da carne, e a certeza de saber que ainda estamos aqui porque não aprendemos.

Jivago Dias Amboni
Janeiro de 2013.

2 de jan. de 2013

Do Planejamento Reencarnatório.



Ao falar de reencarnação, não estamos trazendo nada de novo. Em todos os tempos, os chamados “textos sagrados” sempre trouxeram em seus registros a existência deste fenômeno. Do mais antigo, o Bagavad Guita, da Índia Védica, passando pelos hierógrafos egípcios, encontramos também a reencarnação em todos os ensinos dos iniciados, seja entre os antigos povos Orientais, como também pelos Ocidentais, passando pelos Gregos, Romanos e também pela civilização Hebraica.

O que temos hoje com a Doutrina Espírita é em suma um aprofundamento nas explicações de como a reencarnação ocorre, quando o Espírito, já em processo de reencarne prepara-se para voltar ao vaso carnal. 

Ao deixar o corpo físico, o Espírito vai encontrar-se em alguma colônia espiritual, aquela condizente com o seu atual estágio de adiantamento (as muitas moradas da casa do Pai). Estando uma vez nestas colônias, entende o Espírito que deixou a Terra, que para continuar a evoluir em sua jornada, necessitará voltar ao Orbe para corrigir aquilo que deixou para trás em existências passadas. 

A partir deste momento, inicia-se um processo paulatino e muito zeloso de planejamento reencarnatório, onde a espiritualidade amiga, e especializada nestes trabalhos, planejará o retorno do Espírito a Terra. 

Este planejamento se fará sempre respeitando-se a trajetória deste Espírito, onde será analisado o livre arbítrio de suas últimas jornadas. Acertos e erros serão colocados no momento do planejamento, pois é destes acertos e erros que serão formatados a nova realidade do Espírito na Terra, ou seja, nossa vida atual é o resultado das nossas vidas passadas. 

Salientamos que o retorno a Terra (reencarnação), não é de forma alguma uma imposição (existem exceções), e muito menos uma condenação. É sim, o fruto do que foi plantado pelo Espírito e planejado pela espiritualidade amiga.

Todo o planejamento reencarnatório, feito com ou sem a participação do Espírito reencarnante (os espíritos podem participar do planejamento reencarnatório, desde que tenham condições morais para isso), é planejado com provas e expiações necessárias a evolução do Espírito, e também as de que ele possa suportar.

Nada nos é dado ao acaso, se temos felicidades e tristezas, é porque plantamos estas felicidades e tristezas em nossos corações (períspirito), em vidas pretéritas. 

Cabe a esta existência na Terra, resgatá-las. A vida atual é a vida da mudança. É a vida da virada para o bem. É a oportunidade que o Espírito encarando tem de fazer-se feliz (entende-se fazer-se feliz do ponto de vista espiritual, e não existêncialista como pregado atualmente pelas doutrinas modernas), nos planos espirituais que virão. É o momento também de buscar a felicidade nesta existência.

Jivago Dias Amboni.
Dezembro de 2012.

6 de out. de 2012

Allan Kardec

O ano de 1804 marcou um ponto de extrema relevância nos constantes trabalhos da Espiritualidade para com a Terra. Nascia em Lion, na França, em 03 (três) de outubro, Hippolyte Léon Denizard Rivail.

Como intelectual Rivail destacou-se por ser um emérito professor, auxiliando a França em seu novo modelo pedagógico, estudos que modernizaram e atualizaram o ensino público daquele país. Foi também autor de várias obras científicas.

Todo este seu talento e conhecimento veio de sua formação como aluno de famosa escola Suíça, conhecido como Instituto de Yverdon, cujo mestre fora o grande Pestalozzi. Como aluno, Hippolyte mostrou-se destacado desde os primeiros anos de estudos.

Aprendendo as teorias humanistas, tradicionais do Instituto de Pestalozzi, o aluno Rivail, já adulto, volta-se a seus trabalhos de ordem pedagógica e científica, até que se iniciou na França os fenômenos das mesas girantes. Neste tempo, renomados senhores e senhoras da sociedade Parisiense começavam a utilizar-se deste para suprir suas curiosidades e suas necessidades materiais.

Como intelectual respeitado, o professor Hippolyte iniciou suas participações nestes fenômenos de forma incrédula, mas logo vendo que os fenômenos eram reais, voltou seu trabalho a um longo processo de análise e pesquisas, dando início ao grandioso trabalho da Codificação Espírita na Terra.

Os estudos do então professor Rivail marcaram na ordem das revelações espirituais, um divisor de águas, pois foi com ele que estes fenômenos começaram a se tornar sérios, em virtude da seriedade de suas análises e questionamentos.

Foi só após longos estudos e reestudos, que o professor iniciou seu trabalho de escrita, verdadeiros registros que estão até hoje dentre nós, com as cinco obras básicas do Espiritismo, bem como a Revista Espírita, documento publicado durante doze anos consecutivos.

Como era muito conhecido no meio científico, e não querendo chamar a atenção para si, mas para a verdade dos fenômenos que se iniciaram Rivail resolveu usar um pseudônimo, utilizando-se no nome Allan Kardec, que segundo seu mentor espiritual (Zéfiro), já tinha sido seu nome numa reencarnação passada, quando fora um Druida, na antiga Gália, hoje França.

Allan Kardec deixava o corpo físico como vivera sua vida após a descoberta da revelação espírita, trabalhando. Dedicando-se exclusivamente aos estudos espíritas no ímpeto de cumprir sua missão.

Homenageamos Kardec não pela sua divindade, pois não foi uma, mas por ser um Espírito comum que cumpriu com sua grandiosa missão. A missão de iniciar o Espiritismo na Terra (sendo apenas a ferramenta para tal), conforme predito pelo Cristo no Evangelho de João.

Que assim seja.
Jivago Dias Amboni – C.E. Circulo da Luz de Criciúma e 9 URE.

12 de set. de 2012

Onde esta a luz?

Ó vida ingrata! Porque cobras tantas aflições, tantas lutas. Onde encontra-se a luz? A calmaria da alma? Talvez este seja um pensamento constante em nossa vida.

Mas será que o que passamos na vida são definitivamente cobranças? O véu do esquecimento nos é dado para que possamos seguir em frente dentro do nosso livre-arbítrio. As aflições, nos ensina Emmanuel, são aquelas construções equivocadas feitas em nossas vidas passadas, e que, em virtude de estarem registradas em nosso perispírito vez ou outra, afloram dentro de nós mesmos, criando mágoas e sentimentos que muitas das vezes desconhecemos, pensamentos outros que nunca pensamos, e assim sucessivamente. 

O mergulho que o Espírito da novamente a carne, serve como fase de depuração, o vaso carnal nada mais é do que o filtro deste Espírito, ainda somatizado em suas atribulações do passado. Com a carne, paulatinamente vamos filtrando estas somatizações, desde que tenhamos vontade de realizar a reforma interior.

É um processo que nos parece lento, mas necessário para a evolução do Espírito. Somente com o esquecimento e o reajuste de todo o passado é que iremos ter existências futuras – tanto dentro da carne, como fora dela, em outros planos - mais saudáveis e harmoniosos.

Jivago Dias Amboni – Centro Espírita Circulo da Luz de Criciúma e 9 URE.
Criciúma, setembro de 2012.

3 de set. de 2012

Gêneros e Intertextualidade: A Bíblia como Obra Literária. (terceira e última parte)

4.    Contexto
    Sempre que nos comunicamos estamos imersos a determinada situação. A isso chamamos contexto. Ou como melhor nos explica Villaça Koch (2006, p. 4), “o contexto é, portanto, um conjunto de suposições baseadas nos saberes dos interlocutores, mobilizados para a intepretação de um texto.”

    Só há entendimento entre os interlocutores quando eles conhecem o assunto sobre o qual vão discorrer e o meio (a linguagem)pelo qual vai ser expresso o tema. Por exemplo: Eu posso ser PHD em física quântica, vou ministrar uma palestra em Harvard para uma plateia tão qualificada quanto eu, mas não sei falar japonês e não há tradutor para esse idioma, e 50% da plateia só fala japonês. O que acontecerá? Somente metade do público compreenderá o que será dito, pelo simples motivo de não conhecer a língua pela qual será proferida a comunicação.Isso também acontece com a leitura da bíblia, há várias expressões idiomáticas das línguas hebraica, aramaica e grega que não conhecemos. Muitos tentam traduzir essas expressões literalmente e não vão ser felizes com o resultado. Como traduziríamos, por exemplo, as seguintes expressões idiomáticas para outro idioma: “Hoje no trabalho engoli muitos sapos”. Ou, ainda, “O seu Joaquim bateu as botas.” Essas expressões são comuns no nosso cotidiano, mas talvez, daqui a cem anos poucos saberão o seu significado. Imaginem textos que foram escritos há dois mil anos e, alguns, há três mil anos ou mais.    Ao depararmos com traduções de textos tão antigos temos que ter cautela em pronunciar qualquer opinião sem o cuidado de verificar o meio, a cultura, o contexto em que foi escrito tais passagens. Koch nos esclarece com mais propriedade a relevância do contexto para a compreensão de qualquer enunciado:
O contexto, da forma como é hoje entendido no interior da linguística textual, abrange, portanto, não só o co-texto, como a situação de interação imediata, a situação mediata (entorno sociopolítico-cultural) e também o contexto sociocognitivo dos interlocutoresque, na verdade, subsume os demais. Ele engloba todos os tipos de conhecimentos arquivados na memória dos actantes sociais, que necessitam ser mobilizados por ocasião de intercâmbio verbal. (2002, cap. II)

E para nos aclarar ainda mais sobre contexto, diz:
Quando adotamos, para entender o texto, a metáfora do iceberg, que tem uma pequena superfície à flor da água (o explícito) e uma superfície subjacente, que fundamenta a intepretação (o implícito), podemos chamar de contexto um iceberg como um todo, ou seja, tudo aquilo que, de alguma forma, contribui para ou determina a construção do sentido. (2008, cap. 3)

5.    Conclusão
   
    Há critérios de estudos de textos que nós, leitores comuns, não estamos acostumados a utilizar. Critérios esses que, a ciência da língua, conhecida como linguística, pode nos ser muito útil para uma melhor interpretação da Bíblia, seja a Bíblia Hebraica ou o Novo Testamento. Se estivermos realmente interessados em compreender um pouco mais a fundo os densos textos da cultura do povo de Israel, podemos nos valer dos estudos de alguns linguistas e, até, inclusive, da teoria literária.

    As pesquisas em Bíblia em nosso país estão só começando. Penso que está área é rica em sutilezas, em detalhes e em nuances que somente estudos sérios, embasados e comprometidos com a pureza da literatura bíblica poderão nos envolver e nos agraciar com as belezas que toda boa obra nos oferece.

A Bíblia deve ser estudada ou lida por prazer, como todos os clássicos da literatura. Temos que evitar os preconceitos. E quando nos deparamos com algo que não entendemos no texto bíblico, devemos procurar respostas em outras pesquisas sérias ou com alguém que esteja mais habituado ao texto em questão. O que não se deve fazer é pensar que aquilo que não compreendemos está errado. Como já dissemos antes, há sutilezas nos textos bíblicos que somente compreenderemos se nos envolvermos com estudos e com a alma.





2 de set. de 2012

Gêneros e Intertextualidade: A Bíblia como Obra Literária. (segunda parte)

Segue a continuação da pesquisa feita pelo confrade Jorgemar Teixeira.

2.    Gêneros textuais na Bíblia

    Para não incorrermos em erro na leitura e interpretação bíblica, temos que ter consciência de que há na bíblia uma diversidade de gêneros literários, tais como: o Didático, o Profético, o Poético, o Apocalíptico, o Jurídico, o Epistolar, etc.Cássio Murilo Dias escreve proveitosa reflexão sobre o estudo dos gêneros literários da Bíblia em seu livro Leia a Bíblia como Literatura:
Falar em “gênero literário” exige que se façam algumas observações prévias. Em primeiro lugar, o termo “gênero literário” corre o risco de fazer esquecer que boa parte do material bíblico surgiu como tradição oral, isto é, antes de se tornarem textos, relatos e ensinamentos eram transmitidos de boca em boca, não só como atividade lúdica e estética, mas também como forma de transmitir cultura, orientações estéticas e conteúdo de fé. Por isso, embora o estudo de gêneros literários baseiam-se no material escrito, não se pode apagar o estágio anterior ao processo de transcrição”.
“Segundo, embora boa parte dos “gêneros literários” tenha esquemas relativamente fixos, esta não é uma regra universal. Há textos que possuem um estilo ou uma índole comum, mas não seguem o mesmo modelo. Com efeito, também esta é uma herança do período de transmissão oral”.
“Terceiro, o gênero literário “puro” existe só na abstração. Toda vez que um modelo é empregado, ele sofre influências do contexto e apresenta alterações, seja na sua forma, seja na sua finalidade. Há também textos híbridos, isto é, uma mesma perícope pode ser formada pela justaposição de dois gêneros literários distintos.
“Quarto, cumpre observar que os mesmos gêneros literários são utilizados tanto no Antigo como no Novo Testamento”. (2007, cap. 4)

Para exemplificar o que nos diz Cássio Murilo Dias, recorremos a Haroldo Dutra Dias:
No relato denominado “encontro junto ao poço”, (...), o redator bíblico procura explicar como os casais de patriarcas se conheceram, além de engrandecer as qualidades de cada um deles.
“A narrativa se desenrola em um dos poucos locais em que homens e mulheres, que não fossem parentes, podiam conversar, na antiga Israel. Nesse local de encontro, as mulheres demonstram sua capacidade de cuidar da casa e do rebanho, ao passo que os homens exibiam sua força de trabalho. (2011, p.147)

    Gn 24    Gn 29    João 4
Homem chega ao poço                                                  11                                         2-4                                              6
Mulher chega para tirar água                                       15-16                                            9                                           7a

Os dois conversam    17-18    8, 11-12a    7b, 9-12
Ele tira a água e oferece a ela e ao rebanho   
19-21   
10   
13-16
Ela volta para casa e relata o encontro     28                                     12b                                 28-29
Ele é convidado a visitar a casa dela                                        31-33                                       13-14                                           40

Os dois se casam    67   
15-21, 28    41-42

Vamos ver como Cássio Murilo Dias nos explica o diagrama supracitado:
As diferenças na aplicação do esquema básico estão em função do que é específico em cada texto. Em Gn 24, em lugar de o homem tirar a água, é a mulher que o faz. Talvez isso aconteça porque o homem que chega ao poço é somente o representante do futuro noivo. Em Gn 29, antes de Raquel chegar, já estão lá os pastores e é com eles que Jacó conversa em primeiro lugar. Só depois chega Raquel. Essa demora na chegada de Raquel antecipa a grande variação nesse caso concreto, isto é, a inversão do casamento: na noite de núpcias, Labão engana Jacó e o obriga a casar com Léa antes de se casar com Raquel. O episódio narrado em Jo 4 é fortemente simbólico: a mulher é figura da Samaria, antiga capital do reino do norte; os cinco maridos não são seres humanos do sexo masculino, mas, sim, cinco divindades cultuadas pelos povos que foram transplantados para a Samaria durante a dominação assíria (cf. 2Rs 17:29-31). Em outras palavras, Jo 4 usa o gênero do encontro junto ao poço para descrever a acolhida do evangelho pelos samaritanos, isto é, como Samaria “se casou” com Jesus. (2007, cap. 4)

Nas partes citadas da Bíblia e na boa explanação de Cássio Dias sobre as mesmas, temos todos os nossos objetos de estudo propostos para esse artigo.Temos o gênero literário chamado “encontro junto ao poço”. Há três encontros em lugares comuns e com finalidades semelhantes entre eles. Os diálogos são similares. As personagens são importantes para o povo judeu. E podemos ir mais longe: Por que num poço de água? O que a água simboliza para esse povo? Há uma explicação lógica para isso?Sim. Como o povo hebreu vivia em áreas desérticas e semiáridas, com raras fontes e poucas chuvas na maior parte do ano, a água tinha uma significação especial em sua cultura. As fontes, as chuvas, os rios, os lagos, os córregos, eram sinais da Graça do Deus único, como vemos abaixo:
•    O paraíso terrestre é banhado por quatro rios (cf. Gn 2,8­15).
•    O salmo 46, ao falar de Jerusalém, diz: “Um rio e seus canais alegram a cidade de Deus”.
•     O Senhor é meu pastor e me conduz às águas tranquilas. (Sl 23).
•     O coração de um rei é o rio de água nas mãos de Deus (Pr 21, 1)
•    Isaías prevê o mundo futuro, quando “O conhecimento do Senhor encherá a terra como as águas enchem o mar”. (Is 11,9).
•    A ciência do sábio aumenta como a inundação e seu conselho é como fonte de
água viva. (Eclo 21,13).
•    Deus, por meio  de Jeremias,  apresenta­se  como “fonte  de água viva” (cf. Jr2,13).

Citamos alguns para servirem de exemplo, mas há vários, inúmeros casos na Bíblia em que a água é mencionada pelo povo de Israel como símbolo sagrado.

Assim como acontece hoje, escrevemos ou falamos de acordo com o gênero que mais se adequa a ocasião, no Antigo e no Novo Testamento isso também ocorria. Então, é natural que os escritores bíblicos usassem de gêneros textuais preestabelecidos em sua época e região conforme a herança cultural daquele povo, como vimos no relato denominado “encontro junto ao poço”.E isso torna o texto bíblico mais inteligível, mais verossímil, mais próximo à nossa realidade. Ou seja, a escritura bíblica e os seus leitores comuns só têm a ganhar quando se abre esse leque de possibilidades de estudos referente ao gêneroliterário.

3. Intertextualidade
    Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, a Intertextualidade é a “superposição de um texto literário a outro; influência de um texto sobre outro que o toma de modelo ou ponto de partida, que gera a atualização do texto citado; utilização de uma multiplicidade de textos ou de partes de textos preexistentes de um ou mais autores, de que resulta a elaboração de um novo texto literário; em determinado texto de um autor, utilização de referências ou partes de obras anteriores deste autor”.

    Utilizando, ainda, os textos de Gênesis 24 e 29 e João 4, nossa percepção literária nos dirá que estas três passagens bíblicas estão inseridas no conceito de intertextualidade, conforme nos explica o Dicionário Houaiss da língua portuguesa.Há superposição de textos, influência de um texto sobre outro e utilização de partes da obra.E para ampliar nosso entendimento de intertextualidade recorremos a Ingedore Villaça Koch:
(...) podemos depreender que, stricto sensu, a intertextualidade ocorre quando, em um texto, está inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da memória social de uma coletividade. Como vemos, a intertextualidade é elemento constituinte e constitutivo do processo de escrita/leitura e compreende as diversas maneiras pelas quais a produção/recepção de um dado texto depende de conhecimentos de outros textos por parte dos interlocutores, ou seja, dos diversos tipos de relações que um texto mantém com outros textos. (2008, cap. 4)

    Para diferir a intertextualidade implícita da explicita Koch nos explica:
Em sentido amplo, a intertextualidade se faz presente em todo e qualquer texto, como componente decisivo de suas condições de produção. Isto é, ela é condição mesma de existência de textos, já que há sempre um já-dito, prévio a todo dizer. Segundo J. Kristeva, criadora do termo, todo texto é mosaico de citações, de outros dizeres que o antecederam e lhe deram origem. (2008, cap. 4)

    Desse modo podemos inferir que, desde que o “homem” começou a transmitir alguns sons para se comunicar em suas comunidades primitivas, esses sons foram sendo repetidos e modificados de acordo com a necessidade de cada momento. Não há textos puros. Todo texto remete a outro, que por sua vez remete a outro anterior e assim sucessivamente.Podemos pensar em outro caso: existe originalidade em se falando de texto? Creio que depende do nosso conceito do que vem a ser original. Paremos por aqui para não perdermos o foco de nosso modesto trabalho.